Estratégias corporativas: integração vertical e concentrações horizontais e diagonais (propriedade cruzada dos meios).
- Estratégias empresariais
O controle da demanda constitui condição
fundamental para garantir a rentabilidade do setor de produtos audiovisuais.
Como corolário, as estratégias de comercialização – distribuição, marketing e
exibição – assumem papel estratégico para a redução dos riscos. Outra
conseqüência é a prática disseminada da discriminação de preços, ou seja, da
ocorrência de preços significativamente distintos para diferentes consumidores
ou mercados que se explica pelo fato das receitas geradas por consumidores ou
mercados adicionais serem obtidas com incrementos desprezíveis de custos.
Deriva-se disso a importância do comércio internacional para possibilitar taxas
de rentabilidade mais elevadas para a indústria.
Na tentativa de reduzir as incertezas e riscos
associados às condições de demandas, a indústria do cinema utilizou, ao longo
de sua história, uma ampla gama de estratégias empresariais. Desde os
primórdios da indústria, a mais importante delas talvez tenha sido o controle
monopolístico do mercado propiciado pela concentração econômica, sobretudo das
atividades de distribuição. Muito embora exercendo funções múltiplas que
incluem, além da própria comercialização, o marketing e o financiamento da
atividade cinematográfica, a função estratégica das distribuidoras é assegurar
o controle dos mercados e gerar uma fonte estável de receitas para os filmes,
dessa forma reduzindo os riscos inerentes a uma indústria caracterizada por
altos níveis de incertezas em relação à demanda.
Essa estratégia foi muitas vezes complementada pela
integração vertical entre produção, distribuição e exibição. Apesar das
tentativas de regulamentação anti-monopolística, tanto nos EUA como em outras
partes do mundo, a prevalência atual dessa estratégia é ilustrada pela formação
dos grandes conglomerados que controlam diversas janelas de exibição, além de
outros tipos de mídia (produção e distribuição de jornais, revistas, discos,
livros e franquia de canais de TV.
- Integração vertical na indústria audiovisual
As estratégias de redução do
risco e incertezas de mercado postas em prática pelos produtores e
distribuidoras basearam-se fortemente nas técnicas de publicidade, propaganda e
mercadologia (marketing) para identificar e influenciar as preferencias dos consumidores
e mercados como forma de assegurar sua lealdade e a previsibilidade da demanda.
Nesse sentido, destacam-se, além das políticas de preços, as estratégias
publicitárias, particularmente aquelas calcadas no desenvolvimento do star
system; a especialização da produção para mercados específicos; a produção de
séries e seqüências para cinema ou TV; a produção e técnica de lançamento de
block-buster com merchandising dos produtos derivados e tie-ins e; por fim, as
técnicas de programação dos padrões de lançamento e windowing dos produtos
audiovisuais.
- Políticas de preços.
A discriminação de preços
constitui prática disseminada em todos os mercados da indústria de
audiovisuais. No mercado internacional, sua ocorrência explica-se pela amplo
diferencial entre o custo (insignificante) de fornecer o produto em mercados
adicionais e seu valor (potencial de geração de receitas) para o
exibidor/distribuidor neste mercado, especialmente quando contraposto ao custo
(alto) de produzir um substituto doméstico. A importância do comércio
internacional de audiovisuais está intrinsecamente relacionada à possibilidade
de reduzir preços no mercado internacional. Entretanto, algumas vezes esse
diferencial de preços é interpretado como um desconto cultural, ou seja, a
redução no preço de venda é atribuída à menor na aceitação cultural do produto
audiovisual noutros países.
A discriminação de preços
ocorre também para os diferentes veículos de comercialização ou janelas de
exibição que pagam preços significativamente distintos para a exibição de um
mesmo produto audiovisual. Por fim, até numa mesma janela de exibição, os
espectadores podem pagar preços diferentes dependendo de características
específicas do ato de consumo como hora ou dia de exibição, idade do
consumidor, etc. Em todos esses casos, o elemento fundamental são os custos
insignificantes de se atender ao consumidor adicional.
- Star system
O desenvolvimento do star
system é a estratégia de maior sucesso na redução dos riscos e das incertezas
de mercado da indústria de audiovisuais. Através da criação de lealdade do
espectador a determinados atores, diretores ou apresentadores torna-se possível
gerar receitas maiores e mais estáveis para os produtos audiovisuais. Assim,
estima-se que a presença ou não de um grande astro responde por 15 por cento da
variança na renda dos filmes norte-americanos. Além disso, para reduzir o risco
dos maiores orçamentos, maiores despesas são feitas com grandes astros, seja
através de honorários fixos ou de participação nas receitas das bilheterias.
Com isso, as cifras atingem, às vezes, cerca de 25% dos vultosos orçamentos da
indústria americana. Schwarzeneger recebeu 12 dos 94 milhões de dólares que
custou a filmagem de Exterminador 2.
- Sequências e séries.
Outro mecanismo freqüentemente
utilizado para reduzir a incerteza da demanda consiste na utilização de
sequências de produtos de sucesso, como bem exemplificam Tubarão e Sexta Feira
13. Mesmo que produtos subsequentes
produzam apenas uma fração das bilheterias de seu predecessor, estas serão
provavelmente mais altas do que aquelas que se poderia esperar de um roteiro
alternativo. O equivalente televisivo das sequências são as séries, nas
quais as novelas se destacam, no caso brasileiro.
Sequências e séries bem
sucedidos demandam menos dos consumidores que já conhecendo os personagens e a
linha original da história, tendem a formar um público leal. Apresentam também
vantagens de custos uma vez que boa parte dos recursos necessários ao
desenvolvimento dos personagens já foi gasto e, muitas vezes, os atores já
estão escolhidos para os papéis. Promover a lealdade para o lançamento de
marcas ou episódios únicos é mais difícil, embora possa ser feito em
relançamentos de pacotes ou antologias, como por exemplo, de um determinado
diretor.
- Block-busters
Outra estratégia é a produção
de blockbusters, isto é, filmes com orçamentos gigantescos de produção e
marketing que combinam recursos artísticos, técnicos e mercadológicos já
comprovados para garantir grandes audiências. "Guerra nas Estrelas" que
inaugurou os blockbuster de efeitos especiais, gerando bilheteria recorde de U$
325 milhões, é um exemplo clássico. Os blockbusters apresentam diversas
vantagens: os filmes per si tornam-se
uma marca; são particularmente atraentes para o principal público freqüentador de cinemas - as platéias de 12 a 24 anos;
e prestam-se o bem ao merchandising.
Naturalmente, o valor dos investimentos
na produção dos blockbusters constitui por si só uma barreira à entrada
para os produtores fora de Hollywood. As consequências dessa estratégia foram
aumentos significativo nos custos do negativo, de reprodução e de publicidade das
maiores produções americanas.
- Lançamento
Para maximizar o público e a
receita potencial de um produto audiovisual, é necessário identificar a
estratégia ótima de lançamento de um filme. As alternativas de lançamento
incluem diferentes perfis de tempo e de intensidade de exibição. Atualmente,
o tempo de sobrevivência de um filme
está fortemente relacionado com o número de cinemas em que foi lançado. Na
época anterior aos blockbusters, a intensidade de exibição em geral aumentava
com o passar do tempo. Promovia-se a estréia em um cinema por mercado regional
acompanhada de uma segunda exibição em um certo número de outros cinemas antes
de o filme finalmente alcançar amplo lançamento no mercado regional. Esta
estratégia facilitava a política de discriminação de preços pela qual nas
estréias cobrava-se preços maiores. Além disso, por apoiar-se na divulgação
boca-a-boca, minimizavam-se os custos de propaganda.
Hoje em dia, para a maioria
dos blockbusters faz-se propaganda maciça na TV e gera-se altos níveis de
atenção antes do lançamento simultâneo em todos os mercados regionais norte
americanos. Estes filmes em geral têm sua distribuição mais ampla na primeira
semana de lançamento e a intensidade da exibição declina ao longo das semanas
que se sucedem à medida que as bilheterias declinam. Na medida em que as
despesas de marketing crescem relativamente aos custos de produção há vantagens
em amortizá-las mais rapidamente num mercado mais amplo.
A estratégia de amplo
lançamento requer grandes investimentos em cópias e propaganda e,
consequentemente, riscos que só poucos filmes fora de Hollywood podem bancar. A
grande maioria continua, portanto, a apoiar-se em estréias exclusivas passando
de mercado em mercado.
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